Coleta única de material genético amplia possibilidades de investigação de doenças e transtornos do neurodesenvolvimento
Publicado em: 31/08/2026, 15:13
A investigação genética de doenças e transtornos do neurodesenvolvimento pode exigir diferentes exames ao longo do tempo. Em crianças e pacientes com quadros complexos, por exemplo, sinais como atraso no desenvolvimento, deficiência intelectual, alterações motoras, baixa estatura ou malformações congênitas podem estar associados a diferentes condições genéticas — e nem sempre a resposta está em um único teste.
Para tornar esse percurso mais simples e preservar possibilidades para as etapas seguintes, o DB Genômica e o DB Molecular desenvolveram uma estratégia baseada no conceito de Coleta Única. A proposta permite que uma mesma amostra de material genético, geralmente obtida por meio de uma coleta de sangue, seja utilizada em diferentes análises ao longo da investigação, conforme a hipótese clínica e a indicação do médico.
A lógica é simples: depois da coleta, o material é processado e o DNA pode ser extraído e armazenado. Dessa forma, caso uma nova pergunta clínica surja durante a investigação, a amostra já disponível poderá ser utilizada em outro exame, quando houver indicação e viabilidade técnica, evitando uma nova coleta.
“Em genética, a investigação nem sempre acontece de uma só vez. O quadro clínico pode se tornar mais claro com o tempo e novas hipóteses podem surgir. Ter o DNA armazenado permite que o médico amplie a investigação sem que o paciente precise, necessariamente, passar por uma nova coleta a cada etapa”, explica Carlos Aschoff, médico geneticista e assessor médico do DB Genômica.
Uma estratégia que vai além do autismo
Os transtornos do neurodesenvolvimento estão entre as situações em que a investigação genética pode ter papel relevante. Mas o conceito de Coleta Única não se restringe ao transtorno do espectro autista (TEA) e pode ser aplicado, de acordo com a avaliação clínica, em diferentes condições.
Podem estar entre as situações que demandam investigação genética casos de atraso global do desenvolvimento, deficiência intelectual sindrômica, doenças neuromusculares, baixa estatura associada a outras características clínicas, atrasos motores ou de linguagem, malformações congênitas e suspeita de doenças genéticas raras.
No caso do TEA, por exemplo, é importante fazer uma distinção: o diagnóstico, na maioria dos casos, pode ser clínico e não depende necessariamente de um teste genético. A avaliação considera aspectos do desenvolvimento, da comunicação, da interação social e do comportamento.
Segundo o médico Carlos Aschoff, a investigação genética pode ser indicada em determinados contextos, principalmente quando o quadro está acompanhado de outras características que levantem a suspeita de uma condição genética associada.
“Um exame genético não confirma nem exclui, sozinho, o diagnóstico de autismo. Quando indicado, ele busca investigar se existe uma alteração genética que possa ajudar a explicar o quadro ou identificar uma condição associada”, afirma Aschoff.
Essa diferença é importante porque o TEA apresenta grande heterogeneidade. Em muitos pacientes, não é possível identificar uma causa genética específica. Em outros, porém, a investigação pode revelar uma alteração associada a uma síndrome ou a uma condição genética que ajude a explicar parte das características observadas.
O que pode ser investigado a partir da mesma amostra
A vantagem da Coleta Única está justamente em preservar a possibilidade de utilizar o material genético em diferentes estratégias diagnósticas. A escolha dos exames depende das características de cada paciente, da história clínica e familiar e da avaliação médica.
Entre as ferramentas disponíveis no contexto da investigação genética estão:
Cariótipo constitucional — avalia o número e a estrutura dos cromossomos e pode identificar alterações cromossômicas maiores, contribuindo para a investigação de algumas síndromes genéticas.
Pesquisa molecular da Síndrome do X Frágil — investiga alterações relacionadas ao gene FMR1, associado à Síndrome do X Frágil, uma condição que pode envolver deficiência intelectual e alterações comportamentais e do neurodesenvolvimento.
Array genômico — permite identificar alterações no número de cópias de segmentos do DNA, conhecidas como variantes de número de cópias (CNVs), algumas das quais podem estar relacionadas a condições do neurodesenvolvimento.
Exoma completo — analisa as regiões codificantes dos genes, os éxons, concentrando-se em uma parcela do DNA na qual estão muitas das variantes capazes de alterar a produção ou a função de proteínas. É uma ferramenta importante na investigação de casos mais complexos.
Genoma — oferece uma análise mais ampla do material genético, contemplando praticamente todo o DNA e incluindo regiões que não são avaliadas pelo exoma. Pode ser considerado em situações selecionadas, de acordo com a hipótese clínica.
Isso não significa que todos os pacientes precisem realizar todos esses exames. A estratégia é justamente permitir que a investigação seja individualizada, evitando a realização indiscriminada de testes.
“Não existe um único exame genético capaz de explicar todos os casos. Cada tecnologia tem capacidade para identificar determinados tipos de alterações, e a sequência da investigação deve ser definida a partir do quadro clínico e da história familiar”, ressalta o geneticista.
Quando a resposta não aparece no primeiro exame
Em doenças genéticas raras, chegar ao diagnóstico pode ser um processo gradual. Características que inicialmente parecem inespecíficas podem, quando analisadas em conjunto, apontar para uma hipótese mais precisa. “É o chamado fenótipo, o conjunto de características observadas no paciente, que, combinado à história familiar, ajuda a direcionar a investigação”, explica Aschoff.
Mesmo quando um exame não encontra uma alteração genética conhecida, a investigação não necessariamente termina. Um resultado sem alterações identificáveis pelos métodos utilizados não exclui uma condição genética nem modifica, por si só, um diagnóstico clínico de TEA.
Isso ocorre porque o conhecimento sobre o genoma humano continua em expansão. Variantes que hoje não têm significado clínico estabelecido podem ser mais bem compreendidas no futuro, assim como novas relações entre alterações genéticas e doenças podem ser descobertas.
Nesse cenário, manter o DNA armazenado pode representar uma vantagem prática: a amostra coletada em determinado momento pode permanecer disponível para novas análises, caso elas se tornem clinicamente relevantes e tecnicamente indicadas.
Informação que pode orientar o cuidado
Identificar uma alteração genética não encerra a investigação — em muitos casos, abre novas possibilidades para o cuidado. Dependendo da condição encontrada, o resultado pode ajudar a reconhecer uma síndrome genética e indicar a necessidade de acompanhar manifestações que podem envolver diferentes órgãos e sistemas.
Também pode contribuir para o planejamento do acompanhamento clínico, para decisões relacionadas à assistência e para o aconselhamento genético da família. Em determinadas condições, o conhecimento da alteração genética pode ainda oferecer informações sobre a possibilidade de recorrência em futuras gestações e indicar a necessidade de investigar outros familiares.
“Por isso, o resultado de um teste genético deve ser interpretado dentro do contexto clínico, preferencialmente com o apoio de profissionais capacitados em genética”, destaca o médico.
Uma coleta, diferentes possibilidades
Ao propor a Coleta Única, o DB Alta Complexidade busca tornar a jornada diagnóstica mais integrada e reduzir, quando possível, a necessidade de novas coletas durante a investigação.
Para pacientes pediátricos, em especial, essa abordagem pode representar maior comodidade para a família. Para o médico, permite preservar uma ferramenta que poderá ser utilizada caso a evolução do quadro ou novas informações clínicas indiquem a necessidade de aprofundar a investigação.
Mais do que concentrar diferentes exames em uma mesma etapa, a proposta é pensar no material genético como um recurso que pode acompanhar a investigação ao longo do tempo.
“Uma única coleta pode preservar possibilidades para o futuro. O objetivo é unir tecnologia, planejamento e cuidado centrado no paciente, permitindo que a investigação genética avance de acordo com as necessidades de cada caso”, conclui Aschoff.
A estratégia reforça uma tendência da medicina genética: utilizar a informação disponível de maneira cada vez mais individualizada, integrando dados clínicos, história familiar e análises genômicas para buscar respostas mais precisas para pacientes e famílias.