Alzheimer: o que mudou nos últimos anos e por que o diagnóstico precoce é uma oportunidade de cuidado
Publicado em: 11/09/2026, 14:09
Durante muito tempo, falar em doença de Alzheimer esteve associado principalmente ao medo da perda de memória, da autonomia e da qualidade de vida. Embora ainda seja uma condição progressiva e sem cura, esse cenário vem mudando. Nos últimos anos, a ciência avançou na compreensão dos mecanismos da doença, aprimorou as ferramentas de investigação e abriu novas possibilidades de tratamento — especialmente quando a identificação acontece nas fases iniciais.
No Setembro Lilás, mês dedicado à conscientização sobre a doença de Alzheimer, olhar para esses avanços também é uma forma de combater o estigma e reforçar uma mensagem importante: receber um diagnóstico não significa perder todas as possibilidades. Significa conhecer melhor o cenário e ampliar as oportunidades de cuidado.
Uma doença que começa antes do esquecimento
A doença pode começar muito antes de sintomas como o esquecimento. Enquanto a memória ainda parece preservada e a rotina segue aparentemente normal, alterações biológicas podem estar acontecendo no cérebro. O processo é silencioso e pode se desenvolver durante anos antes de surgirem dificuldades perceptíveis de memória, linguagem ou raciocínio.
É uma mudança importante na maneira como a doença é compreendida. O Alzheimer deixou de ser visto apenas como uma consequência inevitável do envelhecimento ou como um problema que só poderia ser identificado quando a perda de memória já estivesse instalada.
A doença é neurodegenerativa e a principal causa de demência no mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Alzheimer pode estar relacionado a 60% a 70% dos casos de demência.
No cérebro, uma das marcas mais estudadas da doença é o acúmulo anormal de proteínas, especialmente beta-amiloide e tau, acompanhado de alterações progressivas no funcionamento e nas conexões entre os neurônios.
“Uma das principais mudanças dos últimos anos foi justamente entender que existe uma fase biológica da doença que antecede em muitos anos a manifestação clínica. Isso muda a pergunta que fazemos diante de uma alteração de memória: em vez de olhar apenas para o sintoma, podemos investigar também o que está acontecendo biologicamente”, explica Maria Gabriela de Lucca, médica patologista clínica e assessora médica do Grupo DB.
Isso não significa, porém, que qualquer esquecimento seja sinal de Alzheimer. Perder objetos ocasionalmente, esquecer um compromisso ou demorar para lembrar um nome pode acontecer com pessoas saudáveis. O que merece investigação é a persistência e a evolução dos sintomas, principalmente quando começam a interferir na vida cotidiana.
“Diagnosticar Alzheimer não é simplesmente identificar uma pessoa que está esquecendo coisas. É um processo clínico que considera histórico, sintomas, avaliação cognitiva, exame médico e, quando indicado, exames complementares. O biomarcador entra para responder uma pergunta biológica dentro dessa investigação, e não para substituir o médico”, afirma Maria Gabriela.
Do diagnóstico por exclusão aos biomarcadores
Durante décadas, a investigação do Alzheimer esteve fortemente baseada na avaliação clínica e cognitiva e na exclusão de outras causas que poderiam provocar sintomas semelhantes. Exames de sangue convencionais, por exemplo, podem ajudar a investigar alterações de tireoide, deficiência de vitamina B12 e outras condições potencialmente relacionadas ao comprometimento cognitivo.
Ao mesmo tempo, métodos capazes de identificar diretamente alterações associadas à doença passaram a ganhar importância. Entre eles estão a análise do líquido cefalorraquidiano (LCR), obtido por punção lombar, e a tomografia por emissão de pósitrons (PET), exame de imagem que pode utilizar um radiofármaco para visualizar determinadas alterações no cérebro. São ferramentas importantes, mas que envolvem procedimentos mais complexos do que uma coleta convencional de sangue.
É nesse espaço que os biomarcadores sanguíneos vêm ganhando relevância. Eles procuram identificar, no plasma, sinais biológicos associados à doença — entre eles proteínas relacionadas às alterações de beta-amiloide e tau.
Em 2025, a Alzheimer’s Association publicou sua primeira diretriz de prática clínica específica para o uso de biomarcadores sanguíneos em serviços especializados. O documento recomenda que esses exames sejam utilizados sempre depois de uma avaliação clínica, e estabelece critérios de desempenho para que um teste possa ser utilizado como triagem ou como ferramenta confirmatória.
A recomendação é relevante porque também coloca um freio em uma interpretação equivocada: exame de sangue positivo não deve ser automaticamente traduzido como “a pessoa tem Alzheimer”.
“É importante não transformar o biomarcador em uma espécie de teste de sim ou não para Alzheimer. O resultado precisa ser interpretado considerando idade, sintomas, histórico, avaliação cognitiva e a probabilidade clínica da doença. A medicina está ganhando uma ferramenta muito poderosa, mas ferramenta diagnóstica não é sinônimo de diagnóstico isolado”, ressalta a médica.
Um exame de sangue entra nessa história
A evolução dessa tecnologia começa a modificar também a logística da investigação. Exames baseados em biomarcadores plasmáticos podem ser realizados a partir de uma coleta de sangue, procedimento menos invasivo do que a punção lombar e que, em determinadas situações, pode ajudar a reduzir a necessidade de métodos mais complexos.
Em maio de 2025, a Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora dos Estados Unidos, autorizou o primeiro dispositivo de diagnóstico in vitro baseado em sangue para auxiliar na investigação de Alzheimer. A mudança ajuda a explicar por que os biomarcadores sanguíneos passaram rapidamente do campo da pesquisa para a discussão sobre a prática clínica.
No Brasil, essa tecnologia começa a ser disponibilizada de forma mais ampla por meio do Memora, linha de exames do DB Diagnósticos baseada em biomarcadores plasmáticos e realizada a partir de uma coleta de sangue. Mais do que a praticidade da coleta, a novidade está relacionada à possibilidade de aproximar da população uma tecnologia que antes estava concentrada em centros especializados e dependia, em determinadas situações, de estruturas mais complexas.
“O exame de sangue representa uma mudança importante porque diminui uma das barreiras da investigação: a necessidade de procedimentos mais invasivos ou de estruturas muito específicas para acessar determinadas informações biológicas. Mas acessibilidade não pode significar banalização. O exame deve ser solicitado quando existe uma pergunta clínica e interpretado por um profissional capacitado”, afirma Maria Gabriela.
Segundo a médica, o Memora utiliza biomarcadores plasmáticos e kits diagnósticos registrados pela Anvisa. O exame não substitui a avaliação médica e não deve ser utilizado isoladamente para estabelecer o diagnóstico de Alzheimer.
Essa distinção é particularmente importante em um momento em que os exames sanguíneos começam a chegar ao público.
“Um dos riscos dessa nova fase é o paciente interpretar a tecnologia de maneira simplificada: ‘fiz o exame, então sei se tenho ou não Alzheimer’. Não é assim. O que o exame oferece é uma evidência biológica que ajuda o médico a montar o quebra-cabeça. Quanto melhor essa informação for integrada às demais peças, mais segura tende a ser a decisão clínica”, explica.
Por que investigar cedo pode fazer diferença?
O avanço dos biomarcadores acontece justamente quando a medicina também começa a discutir novas estratégias terapêuticas para fases iniciais da doença. Isso aumenta a importância de identificar alterações cognitivas e investigar suas causas antes que o comprometimento seja muito avançado.
O Ministério da Saúde destaca que o diagnóstico precoce, associado ao tratamento adequado e oportuno, é importante para aliviar sintomas e possibilitar a estabilização ou o retardamento da progressão da doença.
“Tempo passou a ser uma variável ainda mais importante. Quanto antes entendemos o que está acontecendo, mais cedo podemos discutir as possibilidades de cuidado. Isso não quer dizer que todo paciente terá o mesmo tratamento ou que o diagnóstico precoce interromperá a doença. Significa que paciente, família e equipe médica ganham mais tempo para tomar decisões com informação”, diz a médica do Grupo DB.
Há também uma dimensão que vai além da prescrição de medicamentos. Conhecer a causa de uma alteração cognitiva pode permitir que a família organize a rotina, planeje questões financeiras e jurídicas, adapte o ambiente, reduza riscos e estabeleça uma rede de apoio. E existe outro ganho: investigar pode revelar que o problema não é Alzheimer.
“Esse é um ponto muito importante para o paciente. Alteração de memória não é sinônimo de Alzheimer. Existem diversas causas que podem produzir sintomas cognitivos e algumas delas são tratáveis. Por isso, investigar não significa simplesmente procurar uma doença; significa procurar uma explicação”, afirma.
Mudanças importantes de comportamento também podem merecer investigação. “O principal conselho é não esperar a perda de autonomia para procurar ajuda. Se uma mudança cognitiva está sendo percebida pela própria pessoa ou por familiares e está se repetindo, vale conversar com um profissional de saúde. A investigação precoce é uma oportunidade de esclarecer o que está acontecendo”, orienta.
A avaliação pode envolver diferentes profissionais, testes cognitivos, exames laboratoriais e exames de imagem. Biomarcadores sanguíneos podem fazer parte desse percurso quando houver indicação clínica.
Uma nova fase — sem promessas fáceis
Segundo Maria Gabriela, estamos vivendo uma transição de paradigma. “Antes, muitas vezes chegávamos ao Alzheimer depois que o cérebro já havia apresentado alterações durante anos. Hoje conseguimos enxergar parte desse processo de maneira mais objetiva. O grande desafio agora é usar essa informação com responsabilidade, no momento certo”, resume a médica.
